AS IDAS À PROVÍNCIA
Para quem esteja menos por dentro deste processo, existe uma via dolorosa para todos os escritores e músicos que são as idas à provínicia. Leia-se por "província", o que fica a mais de 50 km de casa. Se já morarem na província, então, uma ida a Lisboa tem direito ao mesmo nome. A diferença entre um escritor e um músico é, além do número de pessoas que assiste, o cachet. O músico ganha sempre. O escritor não ganha nunca. Assim, podemos ter de borla, uma Lídia Jorge ou uma Agustina, enquanto uma Rute Marlene custa ( e é paga sem hesitações pelas cãmaras) perto de mil contos. Espera-se do escritor que aceite sem hesitações ir a Cascos-de-Rolha de Cima, mesmo que isso lhe custe perder um dia de trabalho. Às vezes, tem de pagar a gasolina ou o bilhete do seu bolso. E chega lá tem meia-dúzia de pessoas que nunca o leram (não contando o entusiasta que já leu tudo e o maluco que entrou ali porque a noite está fria e tem esperanças que não o metam na rua antes de aquecer...) e a inevitável frustração dos organizadores. A ausência mais gritante é a dos professores de português. Eu, tão bem como muitos, sei o que é chegar à noite cansado de dar aulas. Mas, se eu morasse em Realejo das Brenhas onde a maioria das pessoas julga que Rilke é uma coisa para matar o piolho da videira, ERA CAPAZ (mera hipótese) de falar desse/a autor/a aos meus desinteressados alunos do dia, e TALVEZ (hipótese estapafúrdia, sei) levantar o cu da cadeira e ir conhecer e ouvir um contemporâneo que escreve e pensa em português. Quem sabe se no dia seguinte eu não pareceria menos falso a dizer que ler escritores do nosso tempo é um prazer e uma fonte de enriquecimento...
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